O Juiz, a Polícia e o Malandro

Date 5 março 2008

 FATO VERIDICO ACONTECIDO NO RIO DE JANEIRO. A QUE PONTO CHEGAMOS HEM!!!

        Segunda-feira de carnaval, saio de casa perto das 22:00 horas para encontrar a namorada na porta do Circo Voador, na Lapa.  Lá chegando, saio do táxi falando ao celular para encontrá-la.  Mas não é só. Além de tênis, bermuda e camisa, usava um chapéu, desses vendidos em todos os cantos da cidade a R$ 5,00. Presente da namorada. Coisa de mulher.Algemado

        Então, atravesso a rua e quase sou atropelado por um camburão com luzes e lanternas apagadas com a inscrição CORE no carro.  No mesmo momento o motorista grita ” Ô malandro” e eu, assustado, dou um pulo para a calçada, peço desculpas e viro as costas, continuando ao celular e andando, já na calçada.

        Ai, percebo que a viatura andava ao meu lado, com três policiais de preto, ao que escuto, em alto e bom som: “Saia da rua, seu malandro e bêbado”. Nesse momento, pensei: Isto não é jeito de tratar as pessoas na rua e respondi: “Não sou bêbado nem malandro; se vocês não estiverem em operação, está errado andarem com essa viatura preta e apagada, pois quase me atropelaram e vão acabar atropelando alguém!”

        Oportunidade em que os homens de preto descem da viatura dizendo: “Ô malandro, tu é abusado, tá preso”. Ato contínuo, diante da voz de prisão, estendo os dois braços para ser algemado. Pergunto ao mais novo dos três, que estava completamente alterado: “Qual o motivo da prisão?” Resposta: “Desacato”. Pergunto novamente: “O que os senhores entendem como desacato?”  Resposta: “Até a DP a gente inventa, se a gente te levar pra lá”.  Neste exato momento, percebendo a gravidade da situação, disse: Estou me identificando como juiz federal e minha identificação funcional está dentro da minha carteira, no bolso da bermuda. Imediatamente o policial novinho, que se identificou como André e na DP disse se chamar Cristiano meteu a mão no meu bolso, pegou a minha carteira e a colocou em um dos bolsos de sua farda preta. Então o impensável aconteceu! Disseram: “Juiz Federal é o c…, tu é malandro e vai para a caçapa do camburão.

        Fui atirado na mala do camburão como bandido, algemado, porém, com o celular no bolso e os três policiais do CORE da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, dizendo que no máximo eu deveria ser “juiz arbitral ou de futebol”. Temendo pela vida, por incrível que pareça me veio aquela frase de Dante, da sua obra “Divina Comédia”: “Abandonai toda a esperança, vóis que entrais aqui” Então, sem perder as esperanças, peguei o celular do bolso mesmo algemado e liguei para a assessoria de segurança da Justiça Federal informando a situação, bem baixinho, e que não sabia se seria levado para DP, pedindo para acionar a PM e localizar a viatura do CORE que estava circulando pela Lapa comigo jogado algemado na mala.

        Após a ligação, disse-lhes uma única coisa, ainda na viatura. “Vocês estão cometendo crime, ao que escutei dos três, aos risos: “juiz federal andando com esse chapéu igual a malandro. Até parece. Se você for mesmo juiz, a gente vai chamar a imprensa, pois juiz não pode andar como malandro.”

        Na delegacia, as gracinhas dos policiais continuaram: “Olha o chapéu do malandro”. Então eu disse, já me sentindo em segurança: “Vocês querem que eu tire o chapéu e vista terno e gravata?”

        O fato é que já na presença do delegado as algemas foram retiradas e, vinte minutos depois, um dos policiais de preto vem ao meu encontro e me pede: “Excelência, desculpas, nos agimos mal, podemos deixar por isso mesmo?” Respondi: “Primeiro. Não me chame de Excelência, pois até há pouco vocês me chamavam de malandro. Segundo. Não, não pode ficar por isso mesmo. Como é que vocês tratam  assim as pessoas na rua, como se fossem bandidos. Terceiro. Vocês três não honram a farda que estão vestindo. Quarto. Desde a abordagem policial agi apenas como cidadão, no que fui desrespeitado e, depois de ter me identificado como juiz federal, fui mais ainda, logo, um crime de abuso de autoridade seguido de outro de desacato.

        Depois do circo montado pelo próprio agente do CORE Cristiano, que ligara do interior da DP para os repórteres, de forma incessante, talvez temendo que ele e seus dois colegas de farda preta fossem presos por mim no interior da DP, decidi não fazê-lo porque em nada prejudica a instauração de procedimento administrativo na Corregedoria da Policia Civil, bem como a ação penal por abuso de autoridade e desacato, sendo desnecessário mencionar o dano à minha pessoa, como cidadão e magistrado.

        Pensei, por fim: “Se como juiz federal fui ameaçado por três homens de fardas pretas com pistolas automáticas, algemado e jogado como um bandido na mala de um camburão, simplesmente por tê-los repreendido, de forma educada, como convém a qualquer pessoa de bem, o que aconteceria a um cidadão desprovido de autoridade e de conhecimento dos seus direitos?” Duas coisas são certas, de minha parte: Não permitirei nada “passar” em branco, pois são fatos sérios e graves que partiram daqueles que têm o dever de zelar pela segurança da sociedade e, no próximo carnaval, não usarei o presente da namorada, o tal “chapéu”. É perigoso. Pode ser coisa de malandro.

        Roberto Schuman ? Cidadão e Juiz Federal no Estado do Rio de Janeiro

Nota do autor deste blog:  Isso não é de hoje e realmente como o juiz disse isso só se torna de conhecimento público quando é alguem de renome que é preso, maltratado e humilhado.   Quantas vezes já não vimos pela tv policiais, matando, espancando e humilhando pessoas em porta de favela, fazendo carnificinas apenas por fazer.
Temos bons policiais eu acredito, mesmo que seja uma pequena minoria, a maior parte dos policiais são calejados com baixos salários e personalidades brutas e revoltadas, acham que vestir uma farda os torna maiores e melhores podendo abusar de quaisquer outras pessoas.
E tem em todo lugar.
Triste realidade.
Ralph

3 Respostas para “O Juiz, a Polícia e o Malandro”

  1. um cidadão de BH indignado com o fato diz:

    - nuuuuuuuuuuuuuuuuuh !!!

    Fiquei horrorizado. . . .

  2. Augusto diz:

    Resta saber se o juiz exigiu algum tipo de punição da hora para os “puliças”. E como juiz ele errou muito pois deveria ter enquadrado os tais ali no ato, pois serviriam de exemplo para que outros não praticassem abusos. Inquérito e processo se perde na burocracia e uma liminar pode devolve-los ao trabalho, já que a polícia sempre é carente de mão-de-obra.
    Poderia até fazer uma espécia de repreensão “fake”, na delegacia ele poderia dar voz de prisão aos tais, pegar as suas carteiras de policiais, suas armas, retirar toda a farda onde estivesse alguma identificação de policial, e mandar olhe bem eu disse mandar! a polícia federal jogá-los num camburão e levá-los até a superintendência e jogar o grupo todo numa cela, do jeitinho que a “tchurma” queria fazer com ele!
    Juiz Federal é autoridade prá caramba!
    E mais, deveria ter promovido uma investigação do que aquelas figurinhas andaram fazendo durante a sua carreira policial, deve ter coisa da grossa nas fichas destes caras.

    Valeu!

  3. Emilio diz:

    o juiz foi condescendente, pois, deixou tais policiais a solta para fazer até pior com outras pessoas. O mal não são os policiais, e sim é nossa prórpia Lei aceita todo esse estado de coisa, por isso quando votarem em um candidato, todos teremos que saber suas ideias e intensão, e outra coisa, para melhorar a policia de todo o Brasil é preciso em primeiro lugar pagar bem, em segundo lugar escolher melhor quem vai ser policia e investigar seus antecedentes e exigir do policial curso superior, porque em toda a hierarquia, é exigido nivel de estudo, e do policial não, basta ser alto e forte.
    E O Sr. Juiz que me discupe, se essa vossa ação fosse no futebol o Sr. ganharia um cartão vermelho.

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